domingo, 8 de março de 2015

SER-MULHER no SER-SOCIAL

hannah arendt
Hannah Arendt. In: http://www.hannaharendtcenter.org


Somente Deus, em sua graça incompreendida, poderia incluir a todos em uma realidade que poderíamos chamar de sociedade utópica, ou sociedade da esperança. A luta das mulheres, por relevância social e construção da identidade do ser-mulher, é a mesma luta de Deus pela engendramento de uma visão social inclusiva. A inclusão não torna todos iguais, mas restitui a cada um a sua identidade de ser. Ser-mulher não é ser igual aos homens, mas ter o mesmo valor e reconhecimento de sua relevância. Todos, mulheres e homens, devem ser reconhecidos; não apenas como parte de um corpo social; mas como integrantes desse corpo e participantes efetivos da construção do ser-social. Sem a participação democrática da construção desse ser-social, cria-se um monstro que devora suas partes mais frágeis e compromete a sua própria existência. As mulheres, as crianças, e outras categorias minoritárias, ainda são identificadas como partes mais fracas do ser-social; enquanto persistir essa visão, ainda seremos uma sociedade da possibilidade. Nessa sociedade, a graça de Deus ainda terá muito que fazer para transformá-la, de sociedade da possibilidade em sociedade da esperança, utópica e inclusiva. Então não haverá mais categorias, mas diferenças que se complementam em um único ser-social. Na sociedade da esperança, não haverá “judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Paulo, Gálatas 3.27).

quarta-feira, 4 de março de 2015

Autenticidade da vida cristã

Autenticidade cristã tem a ver com a própria autenticidade do SER. Não há como analisar a autenticidade da vida cristã, sem a análise da própria autenticidade do SER. Segundo Heidegger toda tentativa de definição do ser é fracassada. Então como podemos analisar a autenticidade do Ser e em seguida a autenticidade da vida cristã? Em princípio, deve se ter em mente que o ser-humano se realiza através da fala, através de ouvir o mundo em volta de si. Sem o silêncio, sem a contemplação e a audição do externo, o próprio Ser se perde e se dilui nos conceitos. “A partir da linguagem humana temos a base na qual os fenômenos que definem o ser se manifestam” (LINDÓRIO p. 63).

Segundo Heidegger, O SER se concretiza no tempo, absorvendo e sendo absorvido pelo mundo em volta. O ser-humano é mais um ser entre muitos, porém sua autenticidade se realiza na distinção dos outros seres. Somente o ser-humano existe, os demais são, lhes faltam consciência, por tanto não existem. A existência propicia a autenticidade do ser humano em sua integridade: espiritualidade e corporeidade. Dizer que “o ser-em um mundo é uma propriedade espiritual [enquanto que] a espacialidade do homem é uma qualidade de seu corpo, fundada sempre em uma corporeidade” (p. 94), tira do ser-humano sua autenticidade poque fragmenta o SER, tornando-o um complexo de seres. Enquanto ser existente, o homem se autentica como consciente e determinante de sua existência pela sua pré-sença integralmente.

Como ser autêntico, o ser-humano se define, não pode ser definido, pois é autoconsciente e se transforma no tempo. O próprio tempo autentica a existência humana. Um dos problemas do ser-humano moderno é o empobrecimento do pensamento na definição do SER: tudo se define pela técnica, pelo uso que se faz de cada ente. E “tudo que é atingido por esse olhar provocante da técnica, inclusive o próprio homem, se mostra como reserva de matéria-prima, fundo de provisão disponível para extração, processamento, armazenagem e consumo” (DANTAS et ali). O retorno à conscientização da espiritualidade e da corporeidade do SER, em sua integralidade, pode ser a cura para as frustrações contemporâneas.

Em uma sociedade consumista, o tempo corrói a consciência. A autenticação do SER se transforma em práxis. A praticidade, tanto da relação do ser-humano com os demais seres, quanto consigo mesmo, reduz-se em um projeto de artificializarão do ser-no-tempo. “Em maior ou menor grau, o projeto do eu vai sendo traduzido como posse de bens desejados e a perseguição de estilos de vida artificialmente criados” (GIDDENS, p. 183).

SER CRISTÃO
Sendo ser existente, o ser-humano não apenas é, mas interage com o mundo em sua volta, influencia e é influenciado por esse mundo. O ser-humano não é fruto do meio, mas construtor do próprio meio em que vive. A esse respeito Paulo argumenta: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12.2). Ser cristão é viver o ser-humano em sua completude, ter consciência que pode e deve, em todo tempo, transformar-se a si mesmo e, consequentemente, transformar o mundo. Pois somos o “sal da terra e a luz do mundo” (Mateus 5.13-16).

Ter uma vida cristã autêntica implica participar do sofrimento de Deus e de seu desejo de salvar o mundo. Somente a mudança da mente autentica o ser-cristão. Assim, ser cristão não é frequentar uma igreja cristã; não é buscar a proteção e as bênçãos de Deus; não é praticar o amor ao próximo, ainda que tudo isso faça parte da vida cristã autêntica. O ser-cristão existe enquanto consciente e seguidor de Cristo, engajado em sua missão, participante do seu Reino de justiça, paz e alegria (Romanos 14.17). Somente o ser-imitador-de-Cristo, integralmente, em todo tempo, se define como ser-cristão. Aceitar o sacrifício da cruz é o início da vida cristã autêntica, mas não é tudo. É caminhando com Cristo que o ser-cristão é definido. Dia a dia a graça de Cristo nos transforma em cristãos autênticos, por participarmos de sua morte, de sua ressurreição e de seu Reino. “Se morremos com ele, com ele também viveremos” (2 Timóteo 2.11).


A vida cristã autêntica se concretiza na existência do SER-CRISTÃO, da conscientização do SER em si mesmo. Isso não se dá por si só, mas do “ser-em” o espaço-tempo. Como cristãos existimos para cuidar e ser cuidado. No compartilhamento do eu com o outro a dignidade de ser humano se restaura porque torna o outro igual o eu, participantes da mesma benção, sustentados pelo mesmo Deus.


A Igreja é o espaço onde a vida cristã se torna autêntica, é a comunidade onde os dons e as dores são compartilhadas. Ser Igreja é ser a comunidade do compartilhamento. A igreja precisa ter cuidado para não institucionalizar-se e perder a sua autenticidade, “deve ser desinteressada para ser compartilhada” (CASTELLANOS, p 111), deve alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (Romanos 12.15). Isto é viver a vida cristã autêntica, viver a espiritualidade humana no corpo, ser pré-sença, existir enquanto ser-cristão.

Há uma diversidade de dons que podem ser compartilhados. Todos têm pelo menos um dom para compartilhar, pois “a cada um é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum” (1 Coríntios 12.4). Os que acreditamos serem menos providos de dons, são os que mais os tem, são dotados de humildade, aceitação e capacidade de aceitar a ajuda do outro. A esses, Jesus os chamou carinhosamente de meus pequeninos (Mateus 10.42).

Amar e servir ao outro, nisso se resume os mandamentos de Deus. Quem ama se ocupa com a alegria de compartilhar os dons de Deus, de sofrer com os que sofrem. Somos todos limitados e compartilhamos da carência e da possibilidade de completar o outro. Cuidar do outro e ser cuidado, são esses os dois grandes mandamentos: primeiro se permitindo ser cuidado por Deus através do outro, isso demonstra nossa aceitação de seu amor, segundo cuidando do outro, amando-o como a nós mesmos, nisso demonstramos o amor de Deus através de nós. “Meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei” (João 15.12).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTELLANOS, S. Ulloa. "A igreja como comunidade de saúde integral". In: SANTOS, H. N. "Dimensões do cuidado e aconselhamento pastoral". São Paulo: ASTE, 2008.
DANTAS, J. B.; SÁ, Roberto N.; CARRETEIRO, T. C. O. C. “A patologização da angustia no mundo moderno”. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 61, n. 2, 2009.
GIDDENS, Anthony. “Modernidade e Identidade”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2002.
HEIDEGGER, Martin. “Ser e Tempo”. 15ª ed. Petrópolis: Ed Vozes, 2005.
LINDÓRIO, Auriciene A. “Aconselhamento Pastoral”. Londrina: FTSA, 2015.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

E quanto aos pobres, o que temos feito?

Silas J. Lima


O discurso de que o pobre é carente de pão e que é nossa responsabilidade matar sua fome, não é do pobre, e muito menos de Deus. Esse é um discurso de quem tem muito e um pouco de pão dado não lhe fará falta alguma. O que Deus pede é que compartilhemos o que temos, não apenas o excedente. Há muitos que compartilham apenas o pão porque é tudo o que podem oferecer (1 Coríntios 8), mas há outros que compartilham o conhecimento, a generosidade, a amizade, a hospitalidade, o tempo e muitas outras coisas e habilidades (1 Coríntios 12).

Compartilhar é muito mais que dar, é oferecer ao outro a possibilidade de desfrutar dos mesmos benefícios e assumir as mesmas responsabilidades. Ao oferecer ao outro o compartilhamento do que se tem e ao aceitar o que o outro tem, dá-se a ele o que ele merece, dignidade. Ao compartilhar o que temos, oportunizamos ao outro a participação da nossa alegria e permitimo-nos participar da sua.

O compartilhamento dignifica o outro porque o torna igual, participante da mesma benção, sustentado pelo mesmo Deus. Há uma diversidade de dons que podem ser compartilhados. Ninguém é tão miserável que não tenha o que oferecer, pois “a cada um é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum” (1 Coríntios 12.4). A alguns Deus deu o dom de serem especiais, de oportunizar aos “abastados” a capacidade de amar sem permutas. A esses Jesus chamou carinhosamente de “meus pequeninos” (Mateus 10.42). Uma pessoa considerada incapaz, na verdade têm os maiores dons: pobreza, simplicidade, gratidão, generosidade, humildade e aceitação dos cuidados de Deus através dos outros. Essas pessoas oferecem aos seus cuidadores a alegria de encontrarem sentido para suas vidas vazias.

Amar e servir ao outro, nisso se resume os mandamentos de Deus. “Quem julga as pessoas não tem tempo pra amá-las” (Madre Tereza de Calcutá). Parafraseando, quem ama não tem tempo para julgar as pessoas. Quem ama se ocupa com a alegria de compartilhar os dons de Deus.

A comunidade onde os dons são compartilhados se define como Igreja. Ser Igreja é ser a comunidade do compartilhamento. Sem o compartilhamento, o ajuntamento que chamamos de igreja é apenas a expressão de um reino que não é o de Deus, pois negam o maior de todos os dons, a liberdade, ao usarem a carência para controlar as pessoas. Transformar pedra em pão é uma tentação do diabo, não um comportamento divino (Mateus 4.3-4). Mais que comida, os pobres precisam de dignidade, de espaço entre os ricos. Uma igreja que não tem espaço para o pobre é porque perdeu o brilho da presença do Espírito Santo, se tornou uma empresa com metas e objetivos. Uma igreja local precisa se organizar como instituição, mas é preciso ter cuidado para não institucionalizar-se e perder o significado de ser igreja. “A igreja deve ser desinteressada para ser compartilhada” [1].

Nesse mundo, quem tem o poder econômico também tem o poder político. E esse sistema diabólico, econômico/político em que vivemos, cria um ambiente individualista onde o empoderamento se dá pelas posses. Os bens dão poder de manipulação, quando deveria redundar em alegria pela oportunidade dada por Deus para ajudar. Esse não é o sistema do Reino de Deus, mas do reino das trevas. A igreja deve ter cuidado para não se amoldar pelos valores desse reino. Quando a igreja perde a capacidade de cuidar das pessoas, perde-se de sua missão. O que é uma igreja sem uma missão?

No Reino de Deus, os bens são dádivas de Deus para circular e não para acumular. “Não acumulem para vocês tesouro na terra... Mas acumulem para vocês tesouro nos céus” (Mateus 6.19-20). A acumulação de bens, além daqueles que precisamos, não é apenas egoísta, é perversa, pois impede que outras pessoas desfrutem dos benefícios. A mensagem do evangelho subverte a mensagem do capitalismo: rico não é quem tem tesouro acumulado, mas quem gastou toda a sua fortuna para ajudar os outros, quem ousou compartilhar com os carentes o que lhe dava segurança (Mateus 19.21). E, sem segurança, torna-se igual a todos, dependente da providência divina. 

Vivemos uma contradição, todos querem segurança, independência financeira, mas uma segurança que não seja compartilhada é ilusória. Nosso objetivo deve ser o de lutar pela plenitude do Reino de Deus, onde todos têm o necessário, justiça, paz e alegria (Romanos 14.17). O poder econômico pode assegurar benefícios, mas segrega, tira a paz, a alegria de quem possui e de quem não possui, criando um ambiente de injustiça. Os ricos se isolam e vivem encarcerados em seus castelos, os pobres mendigam sua sobrevivência.

Deus não condena a riqueza, mas a insensibilidade com a carência do outro. Foi o pecado da insensibilidade para com os necessitados que atraiu a destruição de Sodoma (Gêneses 19; Ezequiel 16.49). Se a igreja não voltar-se para o evangelho de Cristo terá o mesmo fim. Quando a riqueza é benção, para quem possui e para quem não possui, não há o que se preocupar. Mas quando a riqueza possibilita a manipulação e a opressão dos pobres, ela é diabólica. A igreja não pode cair na tentação de ser rica e dizer: “estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada” (Apocalipse 3.17). 

A justiça do Reino de Deus não é distributiva, tão pouco igualitária, ela restitui a dignidade e "julga a favor dos que são explorados e dá comida aos que têm fome; põe em liberdade os que estão presos e faz com que os cegos vejam, levanta os que caem, ajuda as viúvas e os órfãos e faz fracassar os planos dos maus" (Salmos 146). Deus continua gritando, e hoje mais alto ainda: eu estou com fome, tenho sede, sou estrangeiro, necessito de roupas, estou enfermo, estou preso, e vocês, o que estão fazendo? (Mateus 25.35-36).

[1] CASTELLANOS, Sergio Ulloa. "A igreja como comunidade de saúde integral". In: SANTOS, H. N. "Dimensões do cuidado e aconselhamento pastoral". São Paulo: ASTE, 2008 (p. 111).


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O movimento da vida

Miroslawski - Origen del Universo


Silas J. Lima

O Universo se tornou inútil... Porém existe esta esperança: um dia o próprio Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo e tomará parte na gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que até agora o Universo todo geme e sofre como uma mulher que está em trabalho de parto (NTLH, Romanos 8.21,22).

Em tudo que está vivo há movimento. Só “se pode dizer que uma porção de matéria esta viva, quando ela ‘faz alguma coisa’, como mover-se, trocar material com o meio etc.” (SCHRÖDINGER, 1997, p. 81). Desde um fungo, ao complexo organismo dos seres humanos, tudo que tem vida tem movimento. O movimento é o que nos permite dizer que uma alga é um ser vivo tanto quanto um elefante.
Uma porção de matéria não viva, quando isolada em um sistema hermético, tende a “entropia máxima”, o ponto em que nenhum movimento acontece, isso devido aos vários tipos de atrito existentes (SCHRÖDINGER, 1997). Mas um ser vivo tende a manter o estado entrópico que permite a existência de movimentos. Cessando o movimento, cessa a vida. A energia primária que impulsiona esses movimentos é emanada do Espírito de Deus (NTLH, Gêneses 1.2). Todo o Universo é sustentado e movido pela presença do Espírito, porque nele tudo vive, move e existe (NTLH, Atos 17.28).

O Espírito é o vento que aciona os moinhos da vida, que enche as velas do barco em direção à nascente. No princípio, foi a força motriz que trouxe o Universo à existência, o sopro de Deus que energizou o ponto no vazio e explodiu o cosmos. O Espírito é a sabedoria de Deus que engendrou o mundo (NTLH, Provérbios 8). Por meio da Palavra Eterna, a energia oscilada pelo Espírito de Deus iniciou a criação (NTLH, Gêneses 1.2). Sem o Espírito o Universo ainda seria o caos, vazio e sem vida.

O Espírito que a tudo sustenta, não se impõe, é manso e sensível. Pode ser enfraquecido, ferido, entristecido (NTLH, Efésios 6.30). O enfraquecimento do Espírito deu origem a um universo escravo, que envelhece preso ao tempo. O gemido do universo é o grito de Deus pela restauração de sua criação. O mundo está imerso em tristeza e sofrimento. A natureza que conhecemos não é a idealizada por Deus, a criação tem saudade da vida em sua plenitude.

A devastação, causada pelo estilo de viver humano, criou uma crise ecológica tamanha que seus efeitos são irreversíveis. O desenvolvimento tecnológico como conhecemos “aniquila, de maneira irrevogável a cada ano, novas espécies de plantas e animais, envenena o ar e o solo e transforma terra fértil em desertos” (MOLTMANN, p. 116). Esse é o mundo atual, mas não será assim para sempre. O homem apreendeu a natureza, dominou sua existência. A natureza é moldada à forma de viver do homem.

A natureza chora a destruição causada pelos homens, tanto quanto a sua destrutibilidade. Só há devastação da natureza porque há a possibilidade de ser destruída.  O mundo perdeu sua liberdade de existir. Mas não é o homem o único inimigo da natureza; a sua própria existência se deteriora com o tempo. "A criatura está ameaçada pela possibilidade - excluída para Deus e para ele somente - do nada e da ruína" (BARTH, p. 74). Não é apenas preservação que a natureza anseia, mas, também, a libertação dos grilhões do tempo, a transformação final em que se tornará indestrutível.

O Universo está preso ao desgaste do tempo. A natureza se apresenta em sua fragilidade, sujeita a agressão e ao aniquilamento. O ser humano é consumido junto com o Universo, submete-se às mesmas leis de desgaste. Por enquanto a criação está presa a uma forma de existência em dor. Mas o sofrimento do Universo encontra sentido em sua recriação. O Espírito antecipa a restauração do cosmos através da esperança, é essa esperança que ecoa em cada partícula do Universo. 

Assim como a criação, existimos entre a queda e a perfeição, entre a origem e a recriação do cosmos. Ainda que de forma precária, o mundo se sustenta pela Palavra criativa de Deus. O Espírito de Deus em Cristo, a Palavra Eterna, cria e recria o Universo, fazendo convergir nele todas as coisas (NTLH, Colossenses 1.16; Efésios 1.10). “Pois todas as coisas foram criadas por ele, e tudo existe por meio dele e para ele” (NtLH, Romanos 11.36). Através da esperança a natureza é salva da aniquilação e nós, através da fé, somos salvos para essa nova criação. Lutar pela preservação ambiental, é participar da obra do Espírito que a tudo sustenta em Cristo. Pois, “em tudo isso eu conheço e identifico a tarefa que me é atribuída, a esperança que a acompanha em razão da graça na qual vivo” (BARTH, p. 32).

A salvação do ser humano só ocorre porque há a salvação de todo o Universo. A superação dos sofrimentos humanos será possível quando toda a Terra for restaurada; quando não houver mais escassez de alimentos, disseminação de doenças, catástrofes naturais; quando a crise ecológica atual, causada pela civilização tecnológica, for superada. A devastação ecológica, o sofrimento do mundo, a fome dos pobres, a dor dos enfermos, o desespero dos aflitos, fazem parte do sofrimento de Deus (NTLH, João 11. 33-35), mas, também, da esperança pela cura de tudo (NTLH, Isaias 11. 6-9). “Deus nos faz participar, a partir de seu próprio movimento, de sua natureza, de sua vida e de seu poder” (BARTH, p. 57).

Do planeta em destruição de hoje, ergue-se a expectativa de sua restauração. O Espírito de Deus infunde, em cada partícula da vida, a esperança por uma realidade em que o Universo seja livre. “Sobre o mundo inteiro não redimido espraiam-se ao mesmo tempo luto e expectativa” (MOLTMANN, p. 115). O grito de Deus é tanto de dor pela devastação quanto de alegria pela restauração, pois o Espírito intercede, de acordo com a vontade de Deus, em favor de sua criação (NTLH, Romanos 8). O mesmo Deus que chora o aprisionamento do universo; antecipa, através da presença do Espírito, a alegria de sua salvação.

O Espírito infunde em nós a certeza de um mundo melhor. O “amor e a bondade de Deus se renovam a cada manhã” (NTLH, Lamentações 3.23), trazendo a cada-nascer-do-sol uma nova esperança. De dia em dia, aproximamo-nos mais do dia em que o Universo será restaurado, e, com sua restauração, completaremos a nossa salvação, a restauração plena da natureza divina em nós (NTLH, 2 Pedro 1.4). Desse dia em diante “não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (NTLH, Apocalipse 21.4). Esta é a nossa comunhão com a criação não humana, participamos de seu sofrimento, mas também de sua esperança. Quando oramos e apresentamos a Deus nossos anseios, apenas fazemos ressoar o eco do sofrimento de Deus no mundo. E quando agradecemos a Deus pelo dia, juntamos nossas vozes às vozes de uma infinidade de entes que expressam a vitalidade do Espírito em tudo que existe, cada um a seu modo (NTLH, Salmo 19.1-6).

O desespero humano por salvação ecoa junto com o grito de Deus pela salvação do Universo. A presença do Espírito de Deus no Universo infunde vida em um ambiente carregado de morte, acende a luz da esperança na escuridão do medo. Somos tocados por esse Vento e, quando abrimos as portas, o movimento volta ao nível de entropia aceitável, a vida retoma ao seu curso. Tudo vai se endireitando até o dia em que o tempo não terá mais poder e as decisões humanas, influenciadas pelo conhecimento de Deus, optarão pela conservação e não pelo abuso destrutivo da natureza.

NTLH – Bíblia: Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
NVI – Bíblia: Nova Versão Internacional.
BARTH, Karl. “Esboço de uma dogmática”. São Paulo: Fonte Editorial, 2006.
MOLTMANN, “Jügen. A Fonte da Vida, o Espírito Santo e a teologia da vida”. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
SCHRÖDINGER, Erwin. “O que é a vida? O aspecto físico da célula viva seguido de Mente e matéria e Fragmentos autobiográficos”. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Relacionamentos, bençãos ambíguas


Michelangelo: A criação de Adão. Capela Sistina





Silas J. Lima
O ser humano é um ser relacional, nunca se sentirá completo em si mesmo, não porque lhe falta um pedaço, mas porque lhe falta a capacidade de se ver em si mesmo. Sendo relacional, há sempre a carência do outro. Mesmo precisando de se ver no outro para se autodefinir, é único. Não há duas pessoas iguais. Por isso os relacionamentos são ambíguos. Nos relacionamentos buscamos tanto o aniquilamento da alteridade, quanto o que nos identifica como indivíduos.
O desejo egoísta tende à aniquilação do outro, o amor altruísta à preservação. O “desejo é vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir – aniquilar [...] O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar e de preservar” (BAUMAN, 2004, p. 12-13). Assim, os relacionamentos transitam entre a construção e desconstrução do indivíduo, entre a irritação e o prazer.
Por sermos individualistas, os relacionamentos são bênçãos ambíguas, oscilam entre sonhos e pesadelos. O consumismo transforma os relacionamentos em uso do outro. Por isso os relacionamentos, prazerosos no início, acabam se tornando entediantes com o tempo. Assim como um objeto desenhado para o consumo não pode ser resistente ao tempo, um relacionamento em que o desejo é a tônica não pode durar muito tempo.
Em uma sociedade consumista, o tempo corrói os relacionamentos. As relações, transformadas em objeto de desejo, quando não descartadas, se tornam entulhos, incômodos a novos relacionamentos. “Em maior ou menor grau, o projeto do eu vai sendo traduzido como posse de bens desejados e a perseguição de estilos de vida artificialmente criados” (GIDDENS, 2002, p. 183).
No processo de utilização do outro, os relacionamentos são convertidos em conexões. Numa conexão, a convivência entre duas pessoas é mantida enquanto há o interesse de mantê-la. Não é concebível que uma conexão seja mantida sem que haja querer. Assim funcionam as redes sociais, excluem-se ou adicionam-se “amigos” como se fossem pontos de conexão, apenas isso. Sem compromisso, o que chamamos de relacionamentos são conexões frágeis que se rompem com a mesma facilidade com que se formaram. A desconexão de uma pessoa está a um clique do mouse do computador (BAUMAN, 2004).
Relacionar-se exige engajamento, compromisso, tempo gasto em situações pouco produtivas. Um relacionamento envolve decisões em que há perdas, dor e irritação. O compromisso, em um relacionamento dispendioso, é a única justificativa para sua existência. “A pessoa comprometida está preparada para aceitar os riscos que o sacrifício de outras opções potenciais envolve” (GEDDENS, 2002, p. 91).
Relacionamentos, em muitas situações são mantidos pela inflexibilidade de uma decisão de responsabilidade. Mas isso não implica que, mesmo um relacionamento em que o prazer se dissolve, não possa haver realização e alegria. A realização em um relacionamento dispendioso é diretamente proporcional ao amor que se empenha nele. “No amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo. O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado” (BAUMAN, 2004, p. 13).
Os relacionamentos exigem doação, não apenas de parte do tempo, mas, também, de desejos, de sonhos, de projetos. Quando um relacionamento se torna mais importante que projetos pessoais, chamamos isso de amor. O sacrifício de Cristo é o maior paradigma de amor. Nesse sacrifício, Deus foi às últimas consequências de suas escolhas, deu-se completamente pelo relacionamento com o ser humano (BÍBLIA, João 3.16).
Em um relacionamento em que pessoas estão atreladas às outras pelo elo do amor, é a decisão, e não a obrigatoriedade, que sustenta o relacionamento. Uma decisão é sempre voluntária; ainda que seja, muitas vezes, indesejada; nunca é coagida. Não é possível haver amor sem que a voluntariedade e o compromisso sejam a base do relacionamento.
A existência do outro só é possível quando há amor. Sem o amor, não há o outro, não há relacionamentos. Em um mundo sem amor, cada indivíduo é, potencialmente, uma peça a ser usada para satisfazer desejos. No amor o indivíduo se dispõe a diminuir-se, a esvaziar-se para que o outro possa existir. Paulo, ao descrever o comportamento de Deus em Cristo, diz que ele, Cristo, esvaziou-se voluntariamente, diminuiu-se para que pudesse amar os seres humanos e relacionar-se com eles (BÍBLIA, Filipenses 2). É esse amor voluntário de Deus que possibilita ao ser humano sua existência.
O desejo nos relacionamentos; se não for balanceado com a responsabilidade, com a dedicação, com a entrega; incita à compulsão: o desejo levado a extremo. O amor impede que uma pessoa, compulsivamente, consuma a outra instantaneamente. Na compulsão não há tempo para o amadurecimento do desejo, o envolvimento é irracional. Ficar bem ou mal acompanhado, não importa se der tudo errado. Às vezes qualquer um faz qualquer coisa por sexo, drogas e diversão. Tudo isso às vezes só aumenta a angústia e a insatisfação” (TITÃS – Nando Reis\Sergio Brito).
Pela pessoalidade de cada ser humano, as relações são tensas e, quando não descambam para o consumo do outro, são sustentadas por atos de sacrifícios. O amor é o que sustenta os relacionamentos. No amor há entrega, há doação voluntária, há humildade e coragem de arriscar tudo. Sem o amor, os relacionamentos são efêmeros e de curta duração – duram enquanto for prazeroso. Sem o amor, não há compromisso, não há sacrifício e não há cuidados, apenas a fome insaciável pelo que o outro pode oferecer.

BAUMAN, Zygmunt. “Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos”. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zohar, 2004.

GIDDENS, Anthony. “Modernidade e Identidade”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2002.

sábado, 25 de outubro de 2014

SILÊNCIO

Imagem do Google


















A um perder-me em você
Distraia-me com mapas bem feitos
Cegava-me na luz defletida na fumaça
Conduzia-me por uma fé empedernida.
Trilha à alma para as sombras?

A um silenciar-me em você
Perdia-me a ouvir um fio de fumaça
Iludia-me com os sussurros de uma lua muda.
Caminhos escuros dos destinos?
Procura pela canção mais linda?
Retórica aos ouvintes desatentos?
Gritos a uma plateia hipnotizada!

A um encontrar-me em você
Via-me em um espelho escurecido
Sorria para o outro em meus olhos
Misturava suas vozes ao tilintar das correntes.

Eu era jovem pra entender
Acreditava no vazio esculpido aos gritos.

O milagre aconteceu
Os espelhos vaporizaram-se no medo
Os gritos sufocaram-se na noite
Os mapas diluíram-se na imagem.

A canção absorve a fumaça
As suas vozes desenham o lugar.

ESPERANÇA , somente!

Para as sombras, cor
Para a fumaça, cação
Para os mapas, lugar
Para os gritos, silêncio.

SI-LÊN-CIO!
_____   _____!
_____   _________    _______!
______   _______!
________!

(...)

Silas Lima

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Foto

Pontos além dos olhos
Olhares além do infinito
Sussurros além dos versos
Suspiros além dos sonhos.

Senhora da história
Musa da criação
Irmã da esperança
Mãe da alegria.

Substância do Ser
Éter à existência
Anima do tempo
Movimento à vida.

As mentes abstrusas a entendem
Os olhos úmidos a despertam
Os corações partidos a percebem
As almas amolecidas a sentem.

Existo?
Logo creio!

Silas Lima

terça-feira, 8 de julho de 2014

Semântica: vou te mudar

Imagem do Google


Vou te mudar,
preparar um canteiro em mim,
adubar e regar,
ambiente seguro e quente.

Vou te mudar,
transformar-te em uma semente,
crescer-te em mim, folhas e ramos,
uma planta, uma muda.

Você: plantada em mim,
eu: canteiro e jardineiro.

Silas Lima

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Eu?

Eu, casa com tintas sobre tintas,
Encascado com generosas pinceladas do tempo,
Desbotado pela existência renhida,
Tu, minucioso pintor!
Com tua espátula, cuidadosamente removes os sedimentos.
Devolves o viço da primeira camada.

Eu, envergonhado me cubro com folhas,
Com os olhos cerrados me escondo,
Em silêncio me embrulho,
Tímido me recolho, me abrigo,
Tu, amoroso, me observas com paciência,
Com os olhos em mim, me constranges,
Com a canção eterna me desvestes o medo.

Eu; limpo pelo teu hálito,
Animado pelo teu perdão,
Consumido pelo teu amor;
Arqueio-me à tua tênue luz,
Tu, com ternura me endireitas,
Me ergues da lama,
Aprecias a minha nudez,
Me absorves em teu vazio.

Tu e Eu, unidos pelo teu sopro eterno,
Eu e Tu, perfeitos em teu vazio eterno,
Nós, completos em tua plenitude.

Silas Lima

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Só por hoje

Só por hoje
Olhar pela janela
Sorver a cor a desbotar
Celebrar o verde a amarelar
Embrulhar-se no aroma a dissipar
Atinar à nuvem a turvar o céu.

Só por hoje
Não acreditar no absoluto
Não venerar os monumentos
Não esconder o medo
Não vestir a máscara
Não ser herói.


Só por hoje
À inspiração cega
À razão falível
À rota esquecida
À noite apressada
A fé que a tudo completa.

Só por hoje
Mira-me
Atrai-me
Vence-me
Rege-me
Tem-me.


Silas Lima